Discurso de Posse na SBHE (Maringá, 30 de Junho) – Prof. Carlos Eduardo Vieira (Presidente Eleito).

 

Boa noite a todas e a todos.

Inicialmente gostaria de agradecer a confiança depositada pela comunidade brasileira de pesquisadores da História da Educação ao grupo que lidero e que, neste momento, está eleito para dirigir a SBHE, no biênio de 2015-2017.

Preciso agradecer também o aprendizado adquirido, ao longo destes dois últimos anos, na condição de Vice-presidente da SBHE, na gestão conduzida pelo Professor José Gondra e compartilhada com as Professoras Regina Simões, Claudia Cury, diretores regionais e conselho fiscal. Como sabemos a melhor educação é aquela proporcionada pelo exemplo. E, neste sentido, fui testemunha, neste período de gestão, dos melhores exemplos de profissionalismo, generosidade, inteligência e bom humor no convívio com essa diretoria.

Agradeço à Comissão Organizadora Local do VIII CBHE, e faço isso em nome da Professora Maria Cristina Machado, pois sem este trabalho, em tempos de enormes dificuldades políticas, nada disso seria possível. Obrigado pelo cuidado, pelo respeito, alegria e simpatia que têm marcado nossas relações, desde o momento da definição de Maringá como sede do evento. Cabe mencionar que nesta cidade mantenho os melhores laços acadêmicos, além de relações familiares que me ligam à cidade há mais de 15 anos.

Agradeço a Comissão Eleitoral, composta pelas professoras Analete R. Schelbauer e Ednéia R . Rossi, e pelo professor Célio J. Costa, este na condição de Presidente da Comissão, pela lisura e transparência com que conduziram o processo eleitoral.

Agradeço também aos colegas e amigos que compõem a chapa que neste momento foi declarada eleita. Libânia Nacif (Vice-presidente), Carlos Henrique de Carvalho (Secretário), Claudia Cury (Tesoureira), membros das Diretorias Regionais e Conselho Fiscal, espero não decepcioná-los e poder conduzir com racionalidade e sensibilidade o trabalho da entidade, possibilitando a convivência fraterna das diferentes visões e experiências que caracterizam a nossa comunidade.

Agradeço, por fim, os meus alunos e colegas de trabalho da UFPR, com os quais tenho compartilhado o intento de contribuir com a construção do campo da pesquisa e do ensino da História da Educação.

Com o apoio de todos vocês, o grupo que assume a direção da SBHE buscará fazer o melhor para bem representar essa comunidade. Manteremos contato e participaremos de ações junto às agências de fomento e avaliação da pesquisa, às universidades, aos programas de pós-graduação e às associações científicas, com destaque para a ANPED, a ANPUH e a SBPC. No plano internacional, manteremos a política vitoriosa das gestões anteriores que estreitou os laços da SBHE com a comunidade internacional, seja através da coorganização de eventos ou da participação ativa nas discussões sobre os temas que mobilizam os pesquisadores no cenário internacional. Destacamos, em especial, a importância de fortalecer a ISCHE na articulação dos esforços do campo neste contexto global.

Como ficou evidente no relatório apresentado pela diretoria que hoje encerrou o seu mandato, são muitas as responsabilidades que nos esperam e, por essa razão, trabalhar em grupo significa, a um só tempo, cumprir uma exigência fundamental das práticas democráticas de gestão, mas, também, condição para atender aos compromissos estabelecidos pelo programa de trabalho que apresentamos para orientar as ações da SBHE.

Para esse exercício de gestão coletiva, precisaremos aprimorar o uso dos recursos tecnológicos ao nosso dispor, particularmente o site da SBHE, que precisa representar um lugar de encontro amigável para os associados, além de fornecer elementos de gestão racional dos recursos financeiros e das informações acadêmicas sob nossa guarda. A RBHE e as Coleções Documentos e Horizontes serão mantidas, aprimoradas e, de acordo com a disponibilidade de recursos, ampliadas. Dito isso, convido e convoco toda a diretoria eleita para o trabalho, tendo como horizonte específico a defesa dos interesses da SBHE e da vasta e valorosa comunidade de pesquisadores a ela associada.

No plano geral mais geral, nos engajaremos na defesa dos interesses públicos, particularmente daqueles relacionados ao campo educacional, à esfera da escola pública de qualidade e socialmente referenciada.  Devemos lembrar que a História da Educação, antes de ser um campo de pesquisa, foi e é um campo de ação pedagógica, associada à formação de professores, seja em nível médio ou superior. Logo, não aceitamos a noção de que a especialização de um campo em termos científicos representa o seu afastamento da escola e das práticas educacionais. Entendemos exatamente o contrário, quanto mais rigoroso é o conhecimento que produzimos, mais podemos fazer pela superação das enormes dificuldades que cercam a escola brasileira.

Aprendemos como dever de ofício, que cabe à historiadora e ao historiador a missão social de crítica à mistificação e à manipulação da memória e do passado. Logo, é responsabilidade dos Professores/Pesquisadores de História da Educação somarem-se aos esforços de combate, com os recursos da razão e da pesquisa, às ideias e às atitudes discriminadoras de raça, religião, orientação sexual, gênero e posição social. Infelizmente, não falo aqui de um fenômeno menor, já que acompanhamos a maré montante de práticas e de discursos conservadores na mídia, nos espaços de governo e na sociedade de forma geral, que atingem diretamente as escolas e as universidades brasileiras. Não por acaso, estamos vivenciando uma intensa mobilização de professores, técnicos administrativos, alunos e comunidade escolar que tem resultado em greves prolongadas, em protestos e, por consequência, em muitos casos, em repressão violenta. O 29 de abril em Curitiba não representou um atou isolado, movido pela incompetência e prepotência de um governo. Trata-se de um acontecimento frequente na história do Brasil e da Humanidade que expressa o desejo e as práticas autoritárias que estão presentes na nossa sociedade. À violência física, soma-se a violência moral e, sobretudo, o descaso com o espaço público e os seus dinheiros, evidenciados pela endêmica corrupção que tem marcado parcela da experiência de gestão pública no Brasil.

Cenário difícil não pode ser razão de desalento, portanto sigamos firmes, motivados e unidos, fazendo da SBHE um lugar onde a corrupção, o autoritarismo ou a discriminação não encontrem ecos. A questão que se impõe é: como podemos ser, a um só tempo, produtores de conhecimento rigoroso e agentes sociais presentes nas disputas do nosso tempo? Que os exemplos de Marc Bloch, Eric Hobsbawm, Michelle Perrot e Sergio Buarque de Holanda sirvam como inspiração para nossas práticas.

Muito Obrigado.